Despertando o comportamento empreendedor em nossos alunos

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Já falamos anteriormente que empreendedorismo não é sinônimo de empresário. Ele se caracteriza por comportamentos que tornam uma pessoa empreendedora. Algumas pessoas observam situações e naturalmente (re)agem para resolvê-las. Não importa os recursos que tenham disponíveis, parafraseando Mário Sérgio Cortella, “capricho! Fazem o seu melhor, com os recursos que têm”.

Baseados nesta premissa, vamos despertar o comportamento empreendedor em nossos alunos?

Vamos despertar o comportamento empreendedor em nossos alunos?

O que chamamos de princípios do empreendedorismo são 10 comportamentos que o SEBRAE ensina através do Curso Empretec. São eles: (i) Busca de oportunidade e iniciativa; (ii) Correr riscos calculados; (iii) Exigência de qualidade e eficiência; (iv) Persistência; (v) Comprometimento; (vi) Busca de informações; (vii) Estabelecimento de metas; (viii) Planejamento e monitoramento sistemático; (ix) Persuasão e rede de contatos; (x) Independência e autoconfiança.

Estas características são aplicáveis em todas as áreas da vida, inclusive e principalmente na sala de aula.

Como fazer

Você deve estar imaginando como. Então, para despertar a sua criatividade e oportunidade de adaptação a situações que condizem com a sua realidade, sugerimos uma dinâmica com seus alunos:

Em um dia qualquer, o professor, antes de iniciar a aula, comenta com os alunos que uma família da comunidade em que a escola está inserida está passando por sérias dificuldades. O comentário deve ser feito de maneira inocente, e logo depois a aula deve ocorrer normalmente. Passados dois dias, por exemplo, o professor deve mencionar o assunto novamente, perguntando se algo foi feito pela família.

O esperado, na maioria dos casos, é que ninguém tenha tomado qualquer iniciativa prática a respeito do problema relatado dias antes. O professor usará, então, como gancho, o comportamento passivo dos alunos. Proporá, como atividade, que cada estudante sugira, em um parágrafo, como resolver o problema, com os recursos que possui.

Depois de escrito, o professor pede que cada aluno leia sua sugestão. Então, o professor promove um debate com os alunos, elencado o grau de dificuldade de execução de cada ideia sugerida, e a escolha daquelas que serão colocadas em prática.  

Em seguida, pode ser montado um cronograma de execução destas tarefas, e um mural a ser exposto na escola, para atrair voluntários. Também devem ser definidas responsabilidades, de acordo com as habilidades que os alunos demonstram. Por exemplo: quem define o que fazer; quem se responsabiliza por visitar a família para verificar qual a maior necessidade, quem organiza objetos arrecadados, quem encontra transporte para entregar as arrecadações, e assim por diante.

Esta atividade pode se tornar um hábito, estendendo-se para outras pessoas carentes, transformando-se em uma ação social. Isto pode envolver cada vez mais voluntários, e contribuirá para melhorar a qualidade de vida da comunidade.

Os resultados

O mais importante é demonstrar aos alunos que um simples comentário na sala de aula pode ser o início de um movimento (busca de oportunidade e iniciativa) capaz de despertá-los para a possibilidade de grandes realizações. Mas é necessário dar o primeiro passo. Assim, é possível transformar não apenas a vida das pessoas que passavam dificuldades, também dos alunos.

Ao visitar a família (Busca de informações), os alunos (re)conhecerão a realidade do problema. Ao definir quem faz o que ou como, podem ser determinadas as ações que possibilitem melhorar ainda mais a realização da ação. Cuidar da verificação da limpeza dos produtos doados (Exigência de qualidade e eficiência) é um bom exemplo. A montagem do cronograma de tarefas (Estabelecimento de metas), e a divulgação da ação por meio do mural (Persuasão e rede de contatos) mostrarão aos alunos a necessidade de organização. Quando são definidas as responsabilidades de cada um (Comprometimento), valorizam-se as habilidades concernentes à personalidade de cada aluno: há os que preferem atividades internas, e os que preferem interagir com o ambiente externo.

Também é importante que um novo momento de reflexão seja realizado após a as ações. Deve envolver os participantes e, posteriormente, pode e deve divulgar a ação para outras turmas. Inclusive, isto pode fomentar a criação de um grupo ou comissão permanente, com o objetivo de identificar outras necessidades da comunidade e aplicar o mesmo princípio. Para facilitar a execução das atividades, os alunos ainda podem sistematizar sua própria metodologia com auxílio do professor, com base na experiência que realizaram. Assim, é possível replicar a atividade em contextos diferentes, até mesmo em outras escolas.

Comportamento empreendedor x Disciplinas

Cada um dos comportamentos empreendedores pode ser explorado em todas as disciplinas. Para facilitar, relacionamos, abaixo, cada comportamento a uma atividade de determinada disciplina:

(i) Busca de oportunidade e iniciativa: Educação Física – Em um jogo de futebol, as iniciativas de jogada individual caracterizam comportamento empreendedor. A busca pela melhor colocação para sua posição também podem exploradas com os alunos;

(ii) Correr riscos calculados: Ciências – realizar experiências práticas com os alunos auxilia a explorar os riscos calculados. Alguns experimentos envolvem aquecimento por chama, como a destilação, que pode ser explorada nos Anos Finais do Ensino Fundamental;

(iii) Exigência de qualidade e eficiência: Língua Portuguesa – Já dizia Bernard Shaw que a maior ilusão da comunicação é a crença de que ela aconteceu. Para que a comunicação se efetive, é importante que a qualidade da utilização da Língua Portuguesa seja a mais adequada possível. A exploração de gêneros textuais variados que os alunos utilizem no cotidiano é um bom exemplo de aplicação. A partir desta atividade, podem ser estudados conceitos gramaticais;

(iv) Persistência: Língua Estrangeira – Para efetivamente aprender uma língua estrangeira é preciso persistência. É ela que vai garantir a prática, que promoverá melhoria de desempenho;

E tem mais…

(v) Comprometimento: Não valeria a pena restringirmos o exemplo de desenvolvimento deste comportamento a apenas uma disciplina. Entretanto, o comprometimento deve explorado não só em todas as disciplinas, mas também em todas as áreas da vida;

este comportamento deve ser explorado em todas as disciplinas e em todas as áreas da vida. Para que se possa alcançar qualquer objetivo, optamos por não restringí-lo com um exemplo, mas desafiá-lo a enfatizar o comprometimento em todas as suas aulas;

(vi) Busca de informações: História – A busca de informações acerca do passado para compreender o presente é inerente à disciplina de História, e imprescindível no comportamento empreendedor. Aprender sobre diferentes regimes políticos;

(vii) Estabelecimento de metas – Uma ótima maneira de demonstrar a importância do estabelecimento de metas é usar a disciplina de Matemática. É possível trabalhar cálculos envolvendo porcentagem. Por exemplo, defina algumas metas junto com os alunos, e proponha cálculos para acompanhar o quanto uma determinada meta falta para ser alcançada, o quanto certa tarefa representa em relação à meta principal;

Ainda:

(viii) Planejamento e monitoramento sistemático – Para demonstrar este comportamento, sugerimos o uso da disciplina de Geografia como exemplo. Você pode sugerir que os alunos façam um mini senso geográfico, realizando um estudo estatístico referente a uma população da escola. Assim, possibilita o recolhimento de informações, tais como o número de adolescentes, homens, mulheres, crianças e idosos, onde e como vivem as pessoas, profissão, entre outras coisas. Com estas informações, os alunos podem analisar a capacidade e adaptação estrutural da escola em atender aos vários tipos de pessoas. Baseados no resultado desta análise, podem fazer uma projeção populacional para os próximos anos. Ainda, planejar melhorias na escola para que, no futuro, esse crescimento seja sustentável. Para finalizar, implemente, junto com eles, uma forma de monitorar sistematicamente esse crescimento, bem como as ações que a escola fará para atender a essa demanda;

(ix) Persuasão e rede de contatos –  Semelhante ao Comprometimento, esta característica empreendedora deve ser estimulada em todas as disciplinas e em todas as áreas e situações do nosso dia a dia. Um bom relacionamento interpessoal pode fazer a diferença no futuro de qualquer criança ou jovem. Através das relações, conseguimos evoluir e ter contato com mais as oportunidades de crescimento pessoal e profissional;

(x) Independência e autoconfiança – Neste momento, os alunos podem criar sua própria hierarquia para a comissão. Após a experiência já é possível perceber as tarefas que os estudantes gostaram de realizar, reconhecendo melhor a si mesmos. Então, podem definir, de acordo com cada perfil, quais atividades cada um realizará durante determinado tempo e criar nomes ou títulos, definindo departamentos, cargos e funções. Por exemplo: marketing para divulgar, logística, comercial para buscar parcerias, por exemplo. Esse tipo de experiência preparará os alunos para a vida. O objetivo não é prepará-los para o mercado de trabalho, mas desenvolver competências e habilidades que os ajudem a resolver problemas diariamente.

Você deve ter percebido que não é difícil criar atividades que despertem o comportamento empreendedor utilizando situações comuns de nosso dia a dia. Então, pratique pensando em situações condizentes com o contexto de sua escola, de sua comunidade, e faça a diferença na vida de muitas pessoas: inclusive na sua!

Autores:
Elita de Medeiros
Eder Cachoeira

Como citar este artigo em trabalhos acadêmicos, de acordo com as normas da ABNT:

MEDEIROS, Elita; CACHOEIRA, Eder. Despertando o comportamento empreendedor em nossos alunos. Plataforma Cultural, 2017. Disponível em: <http://plataformacultural.com.br/comportamento-empreendedor/>. Acesso em: dia, mês com três letras, exceto se for maio e o ano.

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